O Leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa + indicações de leituras complementares

Como comentei no vídeo e no texto sobre as primeiras impressões da TAG Experiências Literárias, o material complementar peca um pouco por conta da falta de informações. Embora a revista que a TAG envia junto do livro trazer um mapa lindo sobre as divisões da Itália antes de sua unificação, pouco (ou quase nada) é falado sobre o feudalismo naquele material. Esse tema é, contudo, essencial para entender a história do Príncipe de Salina, personagem principal da única obra de Giuseppe Tomasi di Lampedusa.

O feudalismo tem suas características próprias e peculiares. Apesar de haver um rei que (quase) tudo comandava, o real poder estavam nos donos dos feudos. Aqui as relações de vassalagem eram muito presentes e é por conta dessa distribuição do poder nas mãos de vários senhores feudais é que o poder real era totalmente descentralizado. Sendo assim, a unificação pela qual passa a Itália e é retratada pelos olhos de um membro da monarquia, é um processo um tanto “conturbado”.

Sentida de diferentes formas nos diferentes países onde ocorreu, a transição do feudalismo para o capitalismo é um tema importante para entender nossa história contemporânea. Os cercamentos na Inglaterra, por exemplo, expulsaram milhares de camponeses que viviam das terras dos feudos para as ruas das cidades em ascensão com suas indústrias. Era a época das fábricas de roupas de algodão e, aos poucos, mas de forma brutal, as plantações deram lugar à criação de ovelhas. Embora aqui se inicie os processos de assalariamento da mão de obra das indústrias, também é sentido o crescimento de um contingente de desempregados que puxa o salário dos trabalhadores para baixo a medida que cresce.

O genial da obra de Tomasi di Lampedusa é retratar o processo pelos olhos de um príncipe. São esses senhores feudais que, quando não se beneficiam da ascensão da indústria, verão seu poder minguando cada vez mais enquanto a burguesia toma conta das relações econômicas vigentes. Para além dessa questão, o livro O Leopardo traz uma visão crítica muito ferrenha sobre a sociedade do sul da Itália. Em determinado momento o Príncipe de Salina conversa com um representante do novo poder instaurado no país e ele relata como as pessoas de sua região, e ele mesmo, estão tão enraizados no passado e não querem ver o futuro de forma alguma.

Embora eu tenha feito críticas ao material complementar da TAG, o livro em si é maravilhoso e valeu cada centavo da minha assinatura. Apesar disso, as críticas continuam, afinal o serviço não se vende apenas pelo livro.

Portanto, para quem tiver interesse em ler mais sobre esse processo de transição do feudalismo para o capitalismo na Europa, aqui vão algumas indicações:

HOBSBAWN, em “A era do Capital” (https://goo.gl/0wj9C3), fala um pouco sobre a ascendência do capitalismo e como o feudalismo ruiu. Ajuda a entender as personagens mais ligadas à burguesia na história de O Leopardo.

SWEEZY, em “Teoria do desenvolvimento capitalista”, e DOBB, em “A evolução do capitalismo”, se debruçam sobre o tema com bastante profundidade. No curso de Ciências Econômicas da Unicamp, por exemplo, o aluno estuda a dupla como construções contrastantes sobre o mesmo fenômeno: a transição do feudalismo para o capitalismo.

Sobre esse estudo da Unicamp, indico dois textos:

LAZAGNA, Angela, com sua resenha do ‘Balanço do debate: a transição do feudalismo ao capitalismo’ de Eduardo Mariutti (https://goo.gl/GbR5E6). Essa é uma resenha de um livro sobre o assunto, publicado pelo Mariutti, que foi meu professor de História Econômica na Unicamp.

MARIUTTI, Eduardo B. “A transição do feudalismo ao capitalismo : um balanço do debate” (https://goo.gl/dFvNeq). Para quem tiver um interesse gigantesco sobre o assunto, essa é a tese de doutorado do Mariutti! Haja interesse, mas a tese é ótima!

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