[Sem teoria] Ler ou ser feliz? O que “Farenheit 451”, de Ray Bradbury, nos faz pensar?

Sabe aquele incômodo com o mundo? Aquele momento em que você olha um comentário inútil e sem propósito nenhum em um vídeo, texto ou imagem em algum rede social? Quando você ouve uma notícia sobre um crime ou mesmo uma notícia sobre o fato de 44% dos brasileiros afirmarem que não são leitores; 23 % dizerem que não gostam de ler ou 43% dizerem que gostam “um pouco”? Ou qualquer outra situação na qual você para e pensa: “Hein?”? De onde pode vir esse tipo de indignação?

“Você pergunta o porquê de muitas coisas e, se insistir, acaba se tornando realmente muito infeliz.”

Essa frase é de um personagem muito emblemático e, por que não, controverso?, do livro Farenheit 451, de Ray Bradbury. Essa frase é, entre tantas outras que quase acabaram com meus post-its, uma das que mais chamou minha atenção ao longo da leitura e me fez enxergar o quão performático o livro é.

Imagine a situação: você está com o livro Farenheit 451 nas mãos, lendo sobre uma sociedade na qual a leitura é um crime e os livros são queimados. De repente você se depara com uma explicação muito convincente do porquê os livros adquiriam esse caráter criminoso naquela utopia – aliás, uma utopia com um pé muito enraizado na realidade. Eis que você para e pensa: “Por que eu leio? Qual o sentido do ler?”. Então você olha para o livro e imagina ele pegando fogo. Joga ele longe para não se queimar e resolve ir assistir a um vídeo no YouTube que seja única e exclusivamente feito para o “entretenimento”: “Trolei minha mãe dizendo que sou gay!”. Você se incomoda com uma brincadeira que satiriza um tema tão complicado para homossexuais. Afinal, por que você se incomoda? Muda o vídeo e vai assistir a um youtuber homossexual jogando Twister com outro. Aí você se pergunta: “Pra quê?”. O próximo vídeo da lista é outro homossexual, sem camiseta, explicando gírias gays. “Qual o motivo de estar sem camisa?”. Por fim, resolve procurar algo mais construtivo e encontra o vídeo de uma booktuber falando sobre um livro que ela não gostou sem dar argumentos construtivos para além da afirmação “a personagem é rasa”; “a história é rasa”; “não leia (porque eu não gostei)!”. Você se pega pensando: “Hein?”

De onde vem essa indignação? Quantas e quais origens ela tem? É só sua experiência de vida que te faz se sentir assim ou tem mais alguma coisa que te faz pensar “Hein?”?

O livro me fez pensar que a resposta das perguntas acima é: “da leitura”. A primeira citação que destaco neste livro já era a resposta. Reescrevendo ela podemos concluir que: “ler torna a pessoa infeliz”. Faz sentido?

Na sociedade utópica criada por Ray Bradbury, associar a leitura com a infelicidade faz TODO sentido. É por meio da leitura que adquirimos uma nova visão de mundo. Podemos nos transportar para a sociedade russa do século XIX de Dostoievski; para a grega ou romana das eras antes de Cristo de Homero, Virgílio ou Hesíodo; para uma sociedade totalitária de Orwell ou para um sonho de Alice de Carroll. Podemos ver como a queda do feudalismo afetou parte da monarquia italiana e a igreja católica com O Leopardo de Tomasi de Lampedusa; como uma revolução pode ser comprometida pelo tribalismo em Pepetela; como os negros amoleceram o rigor português com Freyre; como qualquer coisa pode ser retratada e apreendida sem sair de casa e da poltrona.

Ao mesmo tempo que nos abre as janelas da imaginação e do conhecimento, a leitura nos deixa críticos, nos faz pensar e refletir – ou, pelo menos, deveria. Ler Marx, por exemplo, te faz enxergar o capitalismo com outros olhos, mesmo que você não termine a leitura do Capital batendo no peito e se dizendo socialista. Ler Sérgio Buarque de Holanda te faz ver que o cordialismo do brasileiro pode ser um ponto que emperra nossa sociedade há muito tempo. Contrastar essas leituras que colocam em cheque o status quo atual com aquelas que fornecem certa esperança na educação e na cultura pode ser uma saída para esse mar de pessimismo, mas acaba sendo mais areia para um caminhão já sobrecarregado.

A questão que fica com tudo isso é: ler ou ser feliz?

A felicidade na sociedade de Bradbury está no entretenimento sem conteúdo:

Bem, daqui a dez minutos entra uma peça no circuito de tela múltipla. Eles me enviaram o meu papel esta manhã. Eu mandei algumas tampas de embalagens. Eles escrevem o roteiro, mas deixam faltando um dos papéis. É uma ideia nova. A dona de casa, que sou eu, faz o papel que está faltando. Quando chega o momento das falas que faltam, todos olham para mim, das três paredes, e eu digo a fala. Por exemplo, aqui o homem diz: “O que você acha dessa proposta, Helen?”. E olha para mim, que estou sentada aqui no centro do palco, entende? E eu digo, eu digo… – ela fez uma pausa e correu com o dedo sob uma fala do roteiro – “Acho excelente!”. E então eles seguem com a peça até que ele diz: “Você concorda com isso, Helen?”. E eu digo: “Claro que sim!”. Não é divertido, Guy?” – Fala da esposa do protagonista do livro para descrever como ela se diverte no salão de TV (Bradbury, 2012, p. 39).

A felicidade também está no não pensar sobre o governo e ser bombardeado com informações sem ter tempo para reflexão:

Se o governo é ineficiente, despótico e ávido por impostos, melhor que ele seja tudo isso do que as pessoas se preocuparem com isso.  […] Encha as pessoas com dados incombustíveis, entupa-as tanto com “fatos” que elas se sintam empazinadas, mas absolutamente “brilhantes” quanto a informações. Assim, elas imaginarão que estão pensando, terão uma sensação de movimento sem sair do lugar. E ficarão felizes, porque fatos dessa ordem não mudam. Não as coloque em terreno movediço, como filosofia e sociologia, com que comparar suas experiências. Aí reside a melancolia. Todo homem capaz de desmontar um telão de tevê e montá-lo novamente, e a maioria consegue, hoje em dia está mais feliz do que qualquer homem que tenta usar a régua de cálculo, medir e comparar o universo, que simplesmente não será medido ou comparado sem que o homem se sinta bestial e solitário. – Fala do chefe dos bombeiros, Beatty, ao protagonista do livro quando ele explica a origem e a função dos bombeiros. (Bradbury, 2012, p. 84).

A felicidade está em um sistema educacional que não deixa os alunos perguntarem nada. Um sistema no qual “ser sociável” não é conversar com as pessoas, mas outra coisa muito estranha:

É agradável estar com as pessoas. Mas não vejo o que há de social em juntar um grupo de pessoas e depois não deixa-las falar, você não acha? Uma hora de aula pela tevê, uma hora jogando basquete ou beisebol ou correndo, outra hora transcrevendo história ou pintando quadros e mais esportes, mas, sabe, nunca fazemos perguntas; pelo menos a maioria não faz; eles apenas passam as respostas para você, pim, pim, pim, e nós, sentados ali, assistindo a mais quatro horas de filmes educativos. Isso para mim não é nada social. Parece um monte de funis e muita água jorrando da torneira, entrando por um lado e saindo pelo outro, e depois eles vêm nos dizer que é vinho, quando não é. – Explicação de Clarisse sobre como eram suas aulas na escola e porquê ela não era considerada sociável (Bradbury, 2012, p. 50).

Enfim, felicidade está em apertar botões e saber montar e desmontar uma TV:

A escolaridade é abreviada, a disciplina relaxada, as filosofias, as histórias e as línguas são abolidas, gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas, e, por fim, quase totalmente ignoradas. A vida é imediata, o emprego é que conta, o prazer está por toda parte depois do trabalho. Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas? – mais uma vez parte da conversa entre o chefe dos bombeiros, Beatty, e o protagonista do livro (Bradubury, 2012, p. 78).

Enfim, o livro realmente se torna performativo ao jogar, a 160km na sua cara a questão: “Por que você lê?”. Você poderia estar se divertindo no YouTube vendo alguém trolando outrem; assistindo novelas sem pensar no porquê elas são cheias de personagens ricos e mansões e com poucos pobres e trabalhadores; poderia estar assistindo ao jogo de futebol para descarregar toda sua raiva nos 90 minutos de ódio, isso sem prorrogação.

Mas não, você está aqui lendo minhas impressões. Está aí lendo algum outro livro, se preparando para suspirar e pensar: “Como a sociedade é uma porcaria mesmo!”, afinal, nem todo livro tem final feliz, mas nosso instinto (sim, instinto) sadomasoquista nos faz ler um livro até o final e, ao fechá-lo, olhar para o mundo e perder mais um pouco da fé nele. Arriscaria dizer que, se você não perde um pouco da esperança que ficou em Pandora a cada leitura, ou você não está lendo direito ou é realmente um otimista.

Referência:

BRADBURY, Ray. Farenheit 451: a temperatura na qual o papel fogo e queima do livro pega dogo e queima. Tradução de Cid Knipel; prefácio de Manuel da Costa Pinto. 2ª ed. São Paulo: Globo, 2012.

AUGUSTO, Sérgio. O brilho incendiário dos livros: Iluminismo e distopia no clássico Farenheit 451, de Ray Bradbury. Quatro Cinco Um. ano 1, nº 1, maio 2017. p. 3. [Site da revista: http://arevistadoslivros.com.br]

ROSA, João Luiz. Um enredo de suspense: Editoras apresentam queda no faturamento, livrarias diminuem de tamanho, mas mercado reage para enfrentar uma dupla crise: a econômica e a da mudança de hábitos dos consumidores. Eu & Fim de Semana. Valor Econômico. São Paulo: p. 11-15. [Disponível para assinantes em: http://www.valor.com.br/cultura/4989486/um-enredo-de-suspense]

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