O humano, a religião e a sociedade de “Os irmãos Karamázov”, de F. Dostoiévski

Ler Dostoievski, em especial “Os irmãos Karamázov”, é mergulhar de cabeça no ser humano, na Rússia e na religião. A obra, a última escrita pelo autor, em 1879, conta a história de três irmãos: Dmítri, Ivan e Alexei e a relação conturbada deles com o pai Fiódor (há um quarto filho também, quem será?). Não, não me esqueci de colocar os segundos nomes de cada um dos personagens aqui. De fato, todo e qualquer personagem sempre aparece com um nome composto difícil de se pronunciar e ainda mais complicado de memorizar e, claro, pronunciar. A única exceção são as crianças, mas mesmo elas recebem nomes compostos nas primeiras vezes que aparecem.

É curioso observar, logo de cara, que toda a obra é narrada por alguém que jamais se identifica, mas é possível ter algumas suspeitas ao longo da obra. É ele, esse narrador misterioso quem escreve, em primeira pessoa, o prefácio do livro. Logo de cara ele diz que irá narrar a biografia de seu herói, Alexei Fiódorovitch Karamázov. Ele tem, portanto, uma enorme admiração sobre Aliocha, o apelido de Alexei. Essa informação, quase no final do livro é relevante para suspeitar quem é o tal narrador. Além disso, nos primeiros capítulos ele dá a entender que mora na mesma cidade russa onde a maior parte da história se passa, mais uma pista para aumentar a tal suspeita. Apesar dessas suspeitas, saber quem é ou não é o narrador pode ser desnecessário. Contudo, em alguns momentos importantes da história ele se desculpa por não narrar os fatos com extrema precisão – essas desculpas são ainda mais veementes no momento crucial do livro; ou seja, estamos reféns da visão e opinião do narrador, o que nos permite desconfiar de algumas passagens, mas poucas.

O último canto do cisne
Como não é possível desvendar (será?) quem é o narrador, nos ateremos à quem nós conhecemos: Dostoiévski, ou Dodô, para os íntimos e amantes.

Dizer que a história é sobre as relações entre o pai e seus três filhos é resumir, ao máximo, o enredo de “Os irmãos Karamázov”. A obra, composta por seis partes (Prefácio, Quatro partes internas e o Epílogo) é profunda, uma imersão sobre a natureza desses personagens e, claro, muito mais. Até os personagens secundários, como o mestre Zózimo, Grutchénka, Kátia Ivânovna (aqui coloco o nome composto porque há mais de uma Kátia), Rakítin e vários outros, têm uma complexidade surpreendente. Cada um a seu modo, eles e elas expressam a visão de Dostoiévski sobre a natureza humana: seus conflitos entre o amor e o ódio, entre a religião e o ateísmo, o “Crime e o Castigo”.

Por ser a última obra escrita pelo autor russo, a impressão que fica é que este livro é seu “canto de cisne”. Em um determinado momento, um dos personagens secundários, que morreria seis meses depois do acontecimento narrado no livro, faz um discurso grandioso e eloquente. O narrador da história chega a comentar que aquele era o canto do cisne que, prevendo a sua morte, a anuncia em sua forma mais bela. É propício fazer essa mesma comparação com Dodô. (Será que ele previa sua morte também, afinal ele morreu em 1880!)

Dada essa característica, a obra parece unir todo o mundo de Dostoiévski em uma só obra. Digo “parece” porque até ler “Os irmãos Karamázov”, tive contato apenas com “O eterno marido” e “Crime e Castigo”. Esta obra eu li em uma versão de bolso, mas foi um dos livros que mais me marcaram até hoje (além disso, ele será o próximo livro do Dodô que relerei). Já “O eterno marido”, foi minha porta de entrada ao mundo do escritor. Lembro que até ler essa obra nunca tinha visto uma história de um homem que é traído, apanha da mulher e sempre volta para seu amor, resignado e fiel. Isso me surpreendeu ao ponto de também marcar minhas leituras. Sabe aquele momento em que você está lendo algo ou mesmo vivenciando algo e pensa: “Dostoievski escreveu sobre isso já!” ou “Queria que esse machista fosse o eterno marido!”? Pois bem, as obras do autor me marcaram, já há muito tempo, desta forma: sempre alguma coisa me remete às duas obras que eu li dele. (Imagine quando ler todas?)

Pois bem, voltando a obra da vez, comentei que ela parece reunir todo seu universo. Imagino (porque li apenas críticas) que “O Idiota” seja o pai Fiódor, assim como “O eterno marido”; Dmitri, o filho mais velho, encarna a obra “Crime e Castigo”; talvez “O adolescente” esteja presente em Alexei e/ou em Kólia, um dos personagens secundários, e por ai vai. (Quem leu todas as obras dele, por favor, confirme ou refute minhas suspeitas lá nos comentário.) Esse canto do cisne de Dostoiévski parece aquele “filme de toda a vida” que passa em frente aos olhos quando alguém está morrendo. Ele talvez tenha sentado, avaliado toda sua obra e sintetizado todas as suas impressões em uma só, magnífica, envolvente, curiosa, sensacional.

A humanidade, segundo Dostoiévski
Dadas as minhas impressões, vamos ao que interessa deste post? Reuni abaixo as melhores frases que encontrei em “Os irmãos Karamázov”. Quando li sobre a obra na internet antes de começar a leitura, vi que Freud a leu e a classificou como “a maior obra da história”. Segundo a Wikipedia (que embora não seja a melhor fonte de consulta, serve para nos dar uma noção da obra), “Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.”

Ok, se Freud falou realmente isso, vamos destacar o que Dostoiévski fala sobre a natureza do homem? O autor traça, ao longo da obra, várias afirmações sobre como é e como se comporta o homem em tais ou quais situações. Além disso, há outras duas questões que saltam aos olhos: a visão sobre a sociedade e a Rússia e os conflitos da Religião.

Em inúmeras passagens, Dostoiévski traça características sobre como era a Rússia do século XIX. Ele fala sobre o suicídio, sobre o embate entre ricos e pobres, o exaustivo trabalho de camponesas e de crianças em fábricas, entre outros.

Nas questões sobre religião, o embate entre a fé e o ateísmo fica muito evidente. Parte da história se passa em um mosteiro, portanto, questões sobre a fé são colocadas em primeiro plano. Há inúmeras passagens da Bíblia cristã e elas são citadas junto de referências do tradutor da edição (Herculano Villas-Boas, da Martin Claret, 2013). Em outros momentos, a fé abre caminho para o ateísmo e o questionamento da existência de Deus. Aliás, uma das passagens mais incríveis (pra mim) foi justamente quando Deus volta à terra e é preso por um religioso. Na cadeia, há um embate extremamente revelador sobre o que os homens fizeram da religião. Essa passagem é uma história dentro da história e isso é genial!

Como dito, as citações abaixo, mostram algumas características traçadas por Dostoiévski sobre a Rússia, o ser humano e a religião de seu tempo. Tentei elencar os tópicos de acordo com temas semelhantes. O objetivo de copiar essas passagens aqui é dar um gostinho sobre a obra. Não coloquei à qual personagem pertence cada e qual fala para aumentar esse “gostinho”. Minhas citações preferidas estão destacadas e no final do artigo há a referência da obra. Os giphys são apenas ilustrativos…

Sociedade e a Rússia

Suicídio (Blue Whale?) e outras características do povo russo


Conheci uma jovem da penúltima geração “romântica” que – depois de muitos anos de um amor misterioso por um senhor com quem poderia se casar tranquilamente – acabou inventando obstáculos insuperáveis ao matrimônio. Em uma noite de tempestade, lançou-se do alto de um penhasco em um rio profundo e agitado, perecendo vítima de sua própria imaginação, só para se assemelhar à Ofélia, de Shakespeare. Se esse penhasco, que ela estimava tanto, fosse menos pitoresco, e em seu lugar se encontrasse um rio raso e prosaico, talvez ela não se suicidasse. Esse fato é real, e acredito que as mais recentes gerações russas assistam muitos casos semelhantes. (p. 21-22)

[…] Compreendia perfeitamente que a alma resignada do povo da Rússia, oprimida pelo trabalho e pela desgraça, especialmente pela injustiça e pelos pecados incessantes – seus e do mundo –, não tinha maior necessidade, maior suave consolo, do que encontrar um santuário ou um santo, cair aos seus pés e adorá-lo. (p. 44)

É assim que ele chamava a segunda esposa: “a possuída”. Foi Grigóri quem mostrou a Aliocha o túmulo da “possuída”. Levou-o ao cemitério: apontou, em um canto distante, uma lápide de metal, modesta, mas decente, onde se gravavam o nome, a condição, a idade da finada, a data de sua morte; abaixo, figuravam quatro versos, como vemos muitas vezes no túmulo das pessoas de classe média. (p. 36)

Como age a juventude russa, ao menos parte dela? Ela vai a uma taverna imunda, como esta aqui, e senta-se em um canto. Esses jovens não se conheciam e ficarão quarenta anos sem se ver. O que eles discutem, nesses momentos, na taverna? Só questões essenciais: se Deus existe, se a alma é imortal. Os que não acreditam em Deus debatem o socialismo, o anarquismo, a renovação de toda a humanidade segundo novas leis, mas essas questões são sempre as mesmas, embora vistas de novos ângulos. E boa parte da juventude russa, a mais original, é hipnotizada por essas questões. (p. 260)

Na Rússia, embora seja absurdo decapitar um irmão pela simples razão de que se tornou um de nós e foi tocado pela graça, também vamos muito bem, obrigado. Entre nós, torturar, espancar, é uma tradição histórica, um prazer rápido e imediato. (p. 267)

O socialismo
— Quero viver pela imortalidade, e não aceito outro compromisso.
Da mesma forma, se chegasse à conclusão de que não há Deus nem imortalidade, viria a ser imediatamente ateu e socialista. (Pois o socialismo não vem a ser apenas a questão dos trabalhadores, ou do quarto estado, ,as, sobretudo, a questão do ateísmo, de sua encarnação contemporânea; a questão da torre de Babel, que se constrói sem Deus, não para atingir os céus a partir da terra, mas para trazer os céus à terra.) (p. 40)

Mulheres, crianças e o trabalho


Mais tarde, surpreso, soube de médicos especialistas que não existia simulação alguma, tratava-se de uma terrível doença das mulheres, resultante, especialmente na Rússia, das duríssimas condições de vida de nossas camponesas. A moléstia se originava de trabalhos esmagadores, executados logo após o parto difícil e doloroso, efetuado sem nenhum apoio médico; e também do desespero, dos abusos, etc., que algumas naturezas femininas não conseguem suportar, apesar de estarem disseminados. (p. 63)

Vi, nas fábricas, até crianças de nove anos: frágeis, doentes, deformadas e jpa depravadas. Numa fábrica sem ar, o barulho das máquinas, o dia inteiro, todo santo dia, muito trabalho, palavras obscenas e muita bebida: é da bebida que precisa a alma de uma criança tão nova? Ela precisa de sol, de brincadeiras infantis, de bons exemplos por toda parte e de um pouco de amor. (p. 348)

Conflitos entre ricos e pobres


Assim, as nossas crianças – não as suas, as nossas –, os filhos dos mendigos desprezados, mas nobres aprendem a conhecer a verdade, já aos nove anos. Como os ricos poderiam aprender a verdade? Eles nunca penetram nestas profundezas, enquanto meu Iliucha penetrou toda a verdade, no mesmo instante em que, na praça, ele beijava a mão que me batia. Ela entrou dentro dele, essa verdade, marcou-o para sempre! (p. 230)

 

— Papai – ele me perguntou –, os ricos são os mais fortes, neste mundo?
— Sim, Iliucha, não há ninguém mais poderoso do que o rico.
— Papai – ele disse –, eu vou ficar rico, serei oficial e vencerei todos os nossos inimigos; o czar vai me recompensar, então ficarei ao lado do senhor e ninguém vai ousar… – depois de uma pausa, ele continuou, com lábios ainda trêmulos: — Papai, que cidade ruim é a nossa, papai!
— Sim, Iliucha, não é uma cidade cidadã, é uma cidade vilã. (p. 231)

Crime e Castigo
Dizem que no estrangeiro o criminoso raramente se arrepende, pois as doutrinas contemporâneas confirmam a sua opinião: seu crime não seria um crime, mas simples revolta contra a força que injustamente o oprime. A sociedade o aparta de si mesma por meio de uma força que o esmaga de forma meramente mecânica, e acompanha essa exclusão com ódio (ao menos, é o que contam na Europa); com ódio, digamos, e com uma indiferença, com um esquecimento, absolutos, quanto ao destino posterior desse homem. (p. 81)

Liberdade e resignação

[…] nada nunca foi mais insuportável para o homem e para a sociedade humana do que a liberdade! (p. 280)

Em toda parte, em nossos dias, o espírito humano, de forma ridícula, começa a esquecer-se da verdadeira garantia do indivíduo não se encontra isolada em seu esforço pessoal, mas sim na solidariedade. Esse terrível isolamento decerto vai terminar; todos compreenderão, ao mesmo tempo, que a separação, uns dos outros, é contrária à natureza; todos se surpreenderão por terem permanecido tanto tempo nas cavernas, nas trevas, sem ver a luz. (p. 336)

A psicologia do humano

Fingimento, realismo e amor à humanidade
De fato, Fiódor Pávlovitch sempre gostou de fingir atitudes, representar algum papel, às vezes sem necessidade alguma, nem que fosse para prejudicar a si mesmo, como nesse caso. Essa é, aliás, uma característica especial de muitas pessoas, mesmo as nada tolas. (p. 25)

Um verdadeiro realista, se ele for incrédulo, sempre encontra em si mesmo a força e a faculdade de não acreditar nem mesmo em milagre e, se o milagre aparecer como fato incontestável, duvidará de seus próprios sentidos, sem admitir o fato; se o admitir, será como um fato natural, mas para ele desconhecido até então. Para o realista, não é a fé que nasce do milagre; é o milagre que nasce da fé. (p. 39)

— É exatamente – disse o mestre – o que me dizia, há muito tempo, o médico de meus amigos, homem maduro e inteligente. Ele se exprimia tão sinceramente quanto a senhora, embora brincando, mas com tristeza. “Amo”, ele me dizia, “a humanidade; mas, para minha surpresa, quanto mais amo a humanidade em geral, menos amo as pessoas em particular, como indivíduos. Mais de uma vez, sonhei ardentemente em servir a humanidade, e talvez até subisse ao calvário por meus semelhantes, se fosse preciso, enquanto não consigo viver com ninguém por dois dias no mesmo quarto – sei por experiência. Quando vejo alguém perto de mim, sua personalidade oprime meu amor-próprio e incomoda a minha liberdade. Em vinte e quatro horas, posso chegar a sentir antipatia pelas melhores pessoas: por uma porque passa muito tempo comendo, por outra porque está resfriada e espirra sem parar. Assim que entro em contato com os homens, torno-me inimigo deles. Em compensação, invariavelmente, quanto mais detesto as pessoas em particular, mais arfo de amor pela humanidade em geral.” (p. 73)

Amor, paixão e ciúmes

Um homem apaixonado pelo corpo de uma mulher, mesmo apenas por uma parte desse corpo (um voluptuoso me entende imediatamente), por ela vai dar seus próprios filhos, vai vender seu pai, sua mãe e sua pátria; se for honesto, vai roubar; se tranquilo, vai assassinar; se fiel, vai trair. (p. 96)

Mas o que pode existir em um amor que é preciso espionar? O que vale um amor, se for preciso vigiá-lo a todo custo? Os verdadeiros ciumentos nem fazem essas perguntas, mas entre eles há até pessoas de alma elevada, que, entretanto, se encontram de pé, às portas, escutando e espionando, que, se compreendem perfeitamente, como os seus “nobres sentimentos”, toda a vergonha com que se cobrem voluntariamente, nunca sentem remorsos, ao menos enquanto estão espionando. (p. 423)

Ira
— A ira! – disse o capitão. – É bem isso. Uma grande ira em um ser tão pequeno. […] Essa idade é sem piedade. Quando estão sozinhos, esses meninos são uns anjos, mas, quando se juntam, tornam-se impiedosos, principalmente na escola. (p. 229)

Todo homem tem um demônio dentro de si: acesso de cólera, sadismo, masoquismo, ataques de paixões cruéis, doenças contraídas sexualmente, ou gota, crises de fígado, etc. (p. 268)

Tolice e distração
Pensativo e distraído, sua face era agradável, seu corpo forte e alto, seu olhar estranhamente fixo, o que caracteriza as pessoas distraídas. (p. 49)

[…] quanto mais somos tolos, mais vamos diretamente ao coração da matéria. Quanto mais tolo, mais claro. A tolice é concisa e sem armadilhas, enquanto a inteligência dá muitas voltas e nunca chega ao ponto. A inteligência é desleal; a tolice é honesta e vai direto ao assunto. (p. 263)

Liberdade 2.0

Para o homem, uma vez livre, não há preocupação mais constante, mais dolorosa, do que encontrar, com a maior rapidez, ‘a quem adorar’. Contudo o homem só deseja adorar o que é indiscutível, o que é adorável para todos, de forma unânime. […] Cada povo cria o seu Deus – ou os seus deuses […] para o homem, não há preocupação maior além de encontrar, o mais cedo possível, a quem ceder esse dom da liberdade que o infeliz carrega ao nascer. Mas, para dispor da liberdade dos homens, é preciso dar-lhes uma consciência serena. […] o segredo da existência humana está não apenas em viver, mas também em encontrar um motivo para viver. Sem uma ideia clara do motivo da existência, o homem prefere renunciar à vida, mesmo cercado por montes de pães, prefere destruir-se a permanecer na terra. […] Para o homem, não há nada mais atraente que o livre-arbítrio, mas tampouco existe algo mais doloroso. (p. 282)

Infância
Jovens de alma e coração puros, ainda quase crianças, muitas vezes gostam de entreter-se com cenas e imagens que seriam repugnantes até mesmo para soldados; aliás, os soldados sabem menos a respeito do que os jovens de nossa sociedade educada. (p. 34)

Só guardei maravilhosas lembranças da casa paterna; para o homem, essas são as lembranças mais preciosas de todas, se o amor e a harmonia reinarem um pouco em sua família. (p. 321)

Mentiras, sofrimentos e alma criminosa

Sabe, podemos dizer… criamos a palavra para mentir por meio dela. E, desde que criamos a palavra, todos mentem. Todos dizem que odeiam o mal, mas consigo mesmos, na verdade, todos amam o mal. (p. 669)

O gênero humano não reconhece seus profetas e os massacra, mas o homens amam os seus mártires e veneram os que eles mesmos levaram ao suplício. Você trabalha por todos, age pelo porvir. (p. 356)

Se neste planeta tudo fosse razoável, nada aconteceria. […] Os homens levam toda essa comédia muito a sério, apesar de toda a sua inteligência indiscutível. É aí que mora o drama humano. Ah, bem, eles sofrem, com certeza, mas… em compensação, eles vivem, vivem realmente, não fantasticamente, pois é o sofrimento que é a vida. (p. 742)

“[…] De forma positiva, senhores jurados”, exclamou Ippolit Kiríllovitch, “podemos afirmar que a natureza profanada e um coração criminoso vingam-se, eles mesmos, de forma muito mais completa do que o faz toda a nossa justiça terrena! Aliás, muito mais: a justiça e o castigo terrestres são muito mais brandos do que o castigo da própria natureza, são até mesmo, nesses dados momentos, indispensáveis à alma do criminoso, para salvá-la do próprio desespero.” (p. 389)

Religião

O que é um mestre? Mestre é quem absorve a tua alma e a tua vontade e transforma-as nas dele. Ao escolher um mestre, tu abdicas da própria vontade, cedendo-a a ele, em total obediência e resignação. O penitente suporta voluntariamente essa prova, esse duro aprendizado, na esperança, depois de longo estágio, de vencer a si próprio: de dominar-se a ponto de finalmente atingir – depois de ter obedecido por toda a vida – a liberdade perfeita, isto é, a liberdade diante de si mesmo, evitando o destino dos que viveram sem se encontrar a si mesmos. Essa invenção, a instituição dos mestres, não é teórica, mas fruto de uma prática milenar no Oriente. (p. 41)

— Se o pecado, a mentira, a tentação fazem parte de nós, existe, entretanto, um ser santo e sublime em algum lugar do mundo. Ele possui a verdade, ele conhece; então, um dia ele descerá até nós e reinará em toda a terra, como prometeu. (p. 44)

— A ideia-mestra de meu artigo é a de que o cristianismo, nos três primeiros séculos de sua existência, aparece na terra como uma igreja, e não era outra coisa. Quando o Estado pagão romano adotou o cristianismo, aconteceu que, tornando-se cristão, incorporou a Igreja a ele, mas isso era inevitável. […] A Igreja Cristã, ingressando no Estado, nada podia ceder de seus fundamentos, da pedra sobre a qual ele repousava; só podia perseguir os seus fins, firmemente estabelecidos e indicados pelo próprio Senhor; entre outros: transformar o mundo inteiro em Igreja e, consequentemente, o antigo Estado pagão também. Dessa forma, (isto é, em vista do futuro), não é a Igreja que deveria buscar um lugar definido no Estado, como “toda associação pública” ou como “uma associação a se propor fins religiosos” (para empregar as palavras do autor que eu refuto); mas, ao contrário, todo Estado terreno deveria, a seguir, converter-se em Igreja; não ser nada mais além de Igreja; renunciar a seus outros fins incompatíveis com os fins da Igreja. […] Se a Igreja absorvesse tudo, ela excomungaria o criminoso e o insubmisso, mas não cortaria as cabeças. […] Por seu crime, ele insurgiria não só contra os homens, mas contra a Igreja de Cristo. (p. 78-9)

— Que pena. Não sei o que faria com o primeiro fanático que inventou Deus. Enforcá-lo não seria o suficiente!
— Sem essa invenção, não existiria civilização. (p. 157)

[…] se Deus existe, se Deus realmente criou a terra, então, como nós sabemos, positivamente, ele fez a terra segundo a geometria euclidiana, e criou o cérebro humano dando-lhe apenas uma noção, a noção das três dimensões do espaço. Mas havia, e ainda há, geômetras e filósofos, mesmo entre os mais importantes, a duvidar que todo o universo, ou, em sentido ainda mais amplo, que toda a existência tivesse sido criada segundo a geometria de Euclides; eles até ousam sonhar que as paralelas se encontram no infinito… (p. 261)

— Penso que, se o diabo não existe… se ele foi criado pelo homem… o homem fez o diabo à sua imagem e semelhança. (p. 265)

O próprio velho Lhe fala que Ele não tem o direito de acrescentar nada ao que já disse. Se você quiser, este é o aspecto fundamental do catolicismo romano. (p. 278)

Por alguma predestinação que jamais consegui compreender, fui encarregado de “negar”, mas sou sinceramente bom e totalmente inadequado para a negação. “Não, vá negar, vá, sem a negação não existiria a crítica!”, e o que viria a ser um jornal “sem crítica”? Sem crítica, tudo seria só “Hosana!” Mas, para viver, só “Hosana!” não basta, é preciso que este “Hosana!” passe pelo crivo da crítica, e assim por diante, nesse gênero. (p. 742)

 

Todas as citações são da obra:

DOSTOéVSKI, Fiódor. Os irmãos Karamázov. Tradução de Herculano Villas-Boas. São Paulo: Martin Claret, 2013.

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