Uma janta bem servida, cercas e padrões [Resenha de “Os Despossuídos”, de Marx (Boitempo) e “O Touro Ferdinando” (animação)]

Meio da tarde de um sábado. Ainda é verão, embora os calendários já apontem que algumas folhas deveriam ficar amareladas nas árvores do Ibirapuera, o Central Park brasileiro. Um clima que é usado como vergonha nacional, principalmente por aqueles que vivem os ares nova iorquinos durante alguns anos da vida. Esses acreditam que a Paulista e a Quinta Avenida são realmente cópias uma da outra, o que confere um pedacinho estadudinense em solo de Macunaíma. Esses, embora uns outros esses, acham que nem isso presta no país e que o bom é viver em terra de gente realmente civilizada e de bom gosto.

Apesar dos anúncios político-meteorológicos, fome. Então três pães de queijo já estão no forno. Pães de queijo do tamanho normal, não aqueles de “coquetel”, mais aperitivos que comida de verdade. Não contente com o cardápio, que deveria ser a última refeição do dia, G. pede um lanche com meia porção de cebolas fritas e uma garrafa de dois litros de Itubaína.

Enquanto o motoqueiro não chega com o pedido, banho. Um cigarro antes e logo o banho já está no fim. Por algum motivo muito estranho para G., o contato com a água o fez se sentir já satisfeito para o dia. “O lanche talvez tenha sido demais”. Problema algum! É claro que não é necessário comer tudo. Uma faca resolveu o problema criado e resolvido em poucos segundos.

Enquanto era a vez do pão de queijo, G. consegue equilibrar muito bem a tarefa de morder o controle e apertar quadrado, triângulo e bolinha no garfo da comida. Com o lanche, especificamente esse lanche, esse nível de habilidade ainda não foi conquistado. Como manda o hábito nessas situações, a Netflix já está estrategicamente ligada e pronta para o RuPauls Dragrace, “Season 8, Episode 5; quando a Raja Gemini está vestida como uma francesa do século XVIII”, a favorita de G.

Copo vazio e sujo de molho, é o guardanapo da cozinha, de pano mesmo, que faz a vez de um de papel para limpar a boca. “Esse pano vai direto para a caixa de roupa sujas depois dessa”, um pensamento estratégico para não deixar rastros do crime. Outro cigarro e o plano já fora revisado: esse pano volta e o terceiro round será com a outra metade do lanche. “Season 3, Episode 6. Três? Puts, disse 8 agora há pouco. Que ofensa para 3 ser confundida com a 8!”. Bem ruim de shade, provavelmente.

Poderia voltar a jogar, mas ainda falta a sobremesa. Próximo episódio acompanhado de farinha láctea Nestlé com yogurte de morango Pauli… “yogurte de morango da deixa-pra-lá-a-marca”.  Marca francesa que infelizmente não tem no Brasil. Para garantir o doce do prato, uma colher (de sopa) de doce de leite, da concorrente daquela segunda marca, a “não-olho-rótulos”.

Ao deitar na cama, logo depois da última colherada e quase na metade do episódio, a barriga está um tanto quanto: cheia; estufada; farta; invejável; a ponto de explodir. Impossível para G. ficar deitado, ele precisa se sentar durante um tempo para esse bolo se espalhar pelo intestino. Agora é só escrever mais um pouco e logo G. estará pronto para voltar para o travesseiro.

 

Isso foi em uma sexta-feira. Amanhã, balada. “É só ficar sem comer o dia inteiro e não beber muito.” Ou seja, gastar a comanda mais em água que em álcool. “Ou o que é melhor: gastar em álcool mesmo e ficar bem chapado, dançar muito e curtir a noite”. Problema resolvido, como sempre.

G. adora comer, mas também adora balada, dançar, música alta, RuPaul’s Drag, dançar e a cor rosa. Tudo é rosa em casa; camisas e camisetas rosa; uma mochila quase branco de tão claro o rosa. Enfim, cor de rosa; mas não as rosas vermelhas e nem amarelas ou as brancas. De tanto rosa, G. é frequentemente relacionado ao elefante rosa de Dumbo; o Pimpão da animação Divertida Mente; ou uma espécie de Barney Rosa.

Na balada, um rosa quase tão chamativo quanto a variante neon da cor. Ainda com três águas marcadas na comanda, G. dança, conversa, fuma, fala mal das drags que ele lembra o nome; com três cervejas a mais, começa a interferir na conversa do grupo do lado e causa risadas altas em quem consegue ouvir na área. Consegue algumas conversas em grupo durante alguns minutos antes de vsnoopoltar para a pista. “Há sempre uma estratégia para não ver o grupo inteiro saindo e te deixando para trás de propósito, saia antes”, tweetou certa vez. G. é incapaz de dar o primeiro passo para tentar conhecer alguém que parece interessante, mas jamais suspeitariam do diagnóstico “Timidez” quando o viam interagindo em público e com amigos. Por este motivo, ele dança, se diverte e não faz lista de quantos beijos ganhou ou conquistou ao longo da noite.

Esse tipo de medo de rejeição já estava superado, porém, não é bom tocar em algumas cicatrizes durante um tempo. Sem precisar dizer as palavras “gordo” e “gay”, uma mera coincidência com o nome de G., o peso e a orientação sexual dele já ficou evidente. Não houve nenhuma tentativa de esconder. As duas características são mero detalhes que fazem da vida dele um potencial (e real) excluído de alguns grupos sociais e de alguns outros grupos de potenciais namorados. “Ter o corpo de um Garfield na cama? Só se for o meu depois das lasanhas do domingo”. Claro, certo?

Para ser do grupo que importa, ou ele precisa ser “Fierce, Fabulous and Fishy” ou ser “forte, fabuloso e gostoso”, não há outra alternativa além das versões em inglês e sua tradução adaptada. Sendo assim, nas vezes que G., bêbado, tentou beijar um “Triple-F”, sempre recebeu um olhar estranho. Uma vez foi quase de repulsa misturada com dó. Dessa vez, porém, G. tinha bebido apenas uma cerveja e nada além disso. Houve uma conversa padrão de três tópicos: nome; o que faz; qual a drag favorita. Um desdobramento um pouco maior, por incrível que pareça, no segundo ponto (optativo) e não no terceiro (obrigatório). Quando a oportunidade abre uma janela para a possibilidade, a tentativa é seguida pela dispensa. “Afinal, quem conversa em balada?”

“Qual o tamanho da bebida: pequeno, médio ou grande?” Um lanche antes de voltar para a casa, porque dançar dá fome. O bom dessa vez é que estará sentado no ônibus até que a barriga estufada diminua. “Isso se esse motorista não estiver ajeitando a carga a cada curva e em cada parada em ponto”, sempre se alertava, mas nunca deixou de correr o risco necessário.

 

Mais uma vez: não é preciso definir o físico e a orientação sexual de G., algumas informações são suficientes para enquadrá-lo em um grupo mental muito bem estabelecido. No mínimo você leitor pensou em alguém que come o mesmo tanto, talvez logo no café da manhã; ou outrem que sabe todas as falas do seriado de drags – insossas quando comparadas com as drags brasileiras, porém juram que valorizam a arte nacional: “Inclusive eu colocaria o nome de minha drag de Vanessa Thunderfuck; brasileiro com uma homenagem à Alaska!”, uma declaração não muito difícil de ouvir.

Definições e padrões são como cercas, eles delimitam um grupo socialmente estabelecido. Todos precisam se encaixar em pelo menos um ou dois para ter uma vida saudável psicológica e financeiramente. Outros escolhem se encaixar em mais de um para assumir uma personalidade própria que tem algo de diferente para questionar a cada dia.

Embora haja alguns grupos obrigatórios e outros optativos, alguns são te dados, as vezes sem querer, as vezes para um orgulho imenso, algumas vezes para te fazer ficar sem crença na justiça: ser gordo, ser gay, ser negro, ser efeminado, ser único, ser realmente transparente. São grupos atribuídos “sem querer” porque você não escolhe ser algumas dessas coisas; “para um orgulho” porque não é fácil aceitar que ser diferente não é abominável como a grande mídia pinta constantemente; “sem crença na justiça” porque sabe o quão corrompido é um sistema que cria leis para beneficiar e salvaguardar uma minoria branca, rica, heterossexual com uma cota aceitável de homossexuais, donas do poder da comunicação e fortes influenciadores na ideologia política da população.

O caminho que G. percorreu até o botão “Foda-se” antes de viver bem com as escolhas e personalidade que tem é similar ao que o Touro Ferdinando percorreu até a pequena fazenda de floricultores nas imediações de Madri. A animação do Studio BlueSky e dirigido pelo brasileiro Carlos Saldanha permite uma interpretação única do processo de auto-aceitação e das cercas que separam nossa realidade em grupos definidos.

Logo no começo da história vemos Ferdinando ainda nos primeiros meses, como um bezerrinho. Enquanto outras crianças da idade dele brincam de luta entre si (ou jogam futebol na hora da Educação Física), o pequeno está preocupado com a flor que ele encontrou no meio do chão de seu quintal. No chão batido e marrom, o verde e vermelho da pequena flor só não se destacam mais porque estão protegidos por uma velha carriola azul. Ferdinando é diferente e, por isso, sofre bulling dos demais bezerros do estábulo. Seu pai, contudo, é forte, vistoso, o mais valente dos adultos. Ele consegue a vaga de emprego em uma boa empresa, porém, não volta para a casa. Antes de o pai partir, contudo, Ferdinando pergunta se haveria algum futuro para ele que não envolvesse as lutas nas touradas. Ele queria sentir o cheiro das flores e não da poeira da arena e do seu sangue escorrendo no pescoço.

Incomodado com a situação e ciente de que o pai não voltaria, F. resolve fugir. Ele pega um trem (que poderia ser um ônibus) e desce longe de onde cresceu (que poderia ser cidades grandes como São Paulo ou Campinas). Ele é encontrado por uma garotinha, filha de um floricultor e é levado para viver no paraíso que sempre sonhara (praticamente o Vale). Enquanto ainda pequeno, Ferdinando passou a ajudar a família no evento anual de flores. Até esse ponto não há spoilers, afinal, são os vinte primeiros minutos de filme. Contudo, esse trecho é suficiente para ver a importância que o elemento cerca tem na animação. Elas separam, em um primeiro momento, os filhos dos pais. Estes ficam em um ambiente competitivo e feroz, nada parecido com o mercado de trabalho. Já os filhos têm nas figuras paternas as mais plenas inspirações para se tornarem os grandes touros que derrotarão os mais bravos toureiros nas arenas. Eles sonham como os pais e agem como eles. Aqui há uma interpretação adicional: a interação entre pais e filhos e talvez a perpetuação de preconceitos de geração em geração.

A segunda cerca presente no filme, separa os alazões e os touros. Aqueles são lindos e sabem bater uma crina como ninguém. Eles falam movimentando a cabeça e a crina segue o movimento dando um brilho especial ao quadro. São esbeltos, altos, loiros e de olhos azuis. Imponentes, extravagantes, ricos. São o modelo ideal, o resto é pura cópia de demasiados desvios de homossexualidade, personalidade e genética. Na verdade, são desvios de desigualdade social, porém, este termo não pertence ao vocabulário refinado de alazões – mesmo quando um deles resolve cursar Ciências Sociais em uma faculdade pública. Estes, para deixar a crítica mais clara, são as Barbies de academia, ou seja, gays brancos, ricos, com físico trabalhado em esteroides, de olhos claros, camisetas de alguma marca fancy, com contas no Instagram seguidas por mais Ks que uma banana é capaz de suportar. Eles ditam o que é ser gay e todos precisam seguir o padrão. Se G. não perder 35 quilos e ganhar no máximo metade em massa muscular, ele não poderá ser um alazão. Se nesta tarefa ele perder muito peso e ficar excessivamente magro, está fora do padrão; se ganhar massa muscular demais, estará apto para outro padrão, um usado como fetiche para os alazões, mas nunca uma possibilidade real de relacionamento; se continuar gordo, será mais indigno ainda de desfrutar da companhia dos perfeitos. É como gostar de flores em um ambiente incentivado à luta.

Por fim, mas limitando apenas essa interpretação de Touro Ferdinando e não excluindo outras possíveis, a última cerca é mais sutil. Ela é aquela entre a vida rural e a vida urbana; ou as vidas nas fazendas de criação de fortes touros e de flores perfeitas; ou as dos grupos sociais padronizados e a do Vale do Foda-se; da exclusão e da personalidade. A animação deixa claro as diferenças entre esses dois lados das cercas nesse elemento crítico que parece ser o central do roteiro.

 

A cerca vermelha

G., além de todos os rótulos que carregam por ele e daqueles que ele carrega com orgulho, tem uma certa profissão. Depois de anos na academia como estudante e pesquisador, conseguiu uma posição confortável dentro dela e, pasmem, na sua área! Contudo, em um determinado momento da carreira, poucos anos depois de seu começo nas pesquisas profissionais, ele resolveu estudar um novo “microcampo” de sua área geral. Começou devagar, porém, logo desistiu do projeto. Em poucas leituras bem selecionadas verificou que havia uma patente sobre uma área similar àquela que queria estudar. Essa patente, registrada em um país europeu, claramente impunha exclusividade à empresa que a protocolou. Qualquer variação de estudo que possibilitasse qualquer ligação com o “trabalho original” devidamente patenteado poderia ser alvo de processo judicial.

“Melhor não arriscar!” e deletou a pasta com uma série de artigos salvos em PDF.

 

Os cercamentos fizeram parte de nossa história e estão no embrião do capitalismo tal qual o conhecemos. A partir do momento em que esse sistema econômico criou as classes, essas fizeram por onde para delimitar e bolar uma estratégia clara de dominação por meio do poder financeiro e da comunicação. Moldaram leis que são favoráveis aos seus interesses particulares e que excluem uma massa enorme de pobres do conceito de direito. Uma dessas leis foi aquela sobre o furto de madeira sobre o qual Marx escreveu uma série de artigos em 1842. Uma atualização desse pensamento dominante do século XIX é o atual sistema de patentes e direitos autorais no mundo; uma metáfora ao mesmo pensamento são as cercas do Touro Ferdinando.

A pauta de Marx, que naquele ano defendera sua tese de doutorado há pouco tempo, era uma série de debates sobre a punição de pobres que furtassem madeira caída no chão de florestas. Em uma certa comissão, representantes do povo (alfabetizados e ricos, em toda sua minoria elitizada) discutiam que a madeira, mesmo que tenha caído da árvore por qualquer motivo natural, é propriedade privada e não poderia ser furtada por ninguém. O texto previa fiscais florestais com poder de juízes contratados pelos grandes proprietários, multas exorbitantes e, em caso de não possibilidade de pagamento do valor mirabolante imposto, quem furtou a madeira seria obrigado a trabalhar para o proprietário durante um certo tempo.

O conjunto de artigos foram publicados pela Boitempo no livro batizado de “Os despossuídos” (2017). Além de serem registros da juventude de Marx, as traduções feitas do original mostram a acidez de sua crítica. Abstraindo o tema central, é possível notar o uso frequente de metáforas e sarcasmos nos comentários sobre os posicionamentos dos membros que discutiam e aprovariam o texto final da tal “emenda”.

A alma mesquinha, lenhosa, desalmada e egoísta do interesse enxerga só um ponto, a saber, o ponto em que ela se machuca, a exemplo da pessoa grosseira que, por exemplo, considera um passante como a criatura mais repugnante que há sob o sol só porque essa criatura lhe pisou nos calos. Ele converte seus calos no órgão com que vê e julga; ele converte o ponto em que o passante o toca no único ponto em que a essência da pessoa toca o mundo.

Trecho do artigo de Marx publicado em 27 de outubro de 1842 na Gazeta Renana (Boitempo, 2017, p. 91)

A todo momento, Marx usa a situação para criticar a mescla do interesse particular com o interesse coletivo; o uso privado de uma máquina pública para benefício exclusivo de uma minoria dominante; a questão da propriedade privada e o crime contra os pobres que esse conceito carrega consigo. Veja esse trecho:

Vê-se que o interesse próprio possui dois pesos e duas medidas com os quais pesa e mede as pessoas, duas visões de mundo, dois óculos, um pinta tudo de preto e outro que deixa tudo colorido. Quando se trata de pôr suas ferramentas a serviço de outras pessoas e dourar meios duvidosos, o interesse próprio põe os óculos coloridos, com os quais enxerga suas ferramentas e seus meios envoltos em um brilho mágico, iludindo a si mesmo e a outros com os devaneios aprazíveis e nada práticos d uma alma delicada e confiante. Cada vinco de sua face revela uma bonomia sorridente. Ele aperta a mão do seu oponente a ponto de machucá-la, mas o faz cheio de confiança. No entanto, de repente é preciso checar a sua própria vantagem, é preciso olhar atrás dos bastidores, onde desaparecem as ilusões do palco, verificar ponderadamente a serventia das ferramentas e dos meios. Conhecedor rigoroso da natureza humana, ele põe agora cautelosa e desconfiadamente os óculos pretos e experimentados, os óculos da práxis. A exemplo de um negociante de cavalos traquejado, ele submete as pessoas a uma longa inspeção ocular à qual nada escapa, e elas lhe aparecem tão ínfimas, tão miseráveis e tão imundas quanto o seu interesse próprio.

Não queremos arrazoar com a visão de mundo do interesse próprio, mas sim obrigá-la a ser coerente.

Trecho do artigo de Marx publicado em 30 de outubro de 1842 na Gazeta Renana (Boitempo, 2017, p. 100)

A edição ainda conta com um texto de Daniel Bensaïd, que faz uma apresentação completa sobre o contexto e o impacto daqueles escritos de Marx. Muito além disso, Bensaïd também atualiza a questão do interesse particular e da propriedade privada. Depois de explicar o quiproquó da madeira da Alemanha do século XIX, o autor faz um paralelo com a questão de patentes genéticas no cenário mundial e do uso coletivo da informação pela internet.

A visão do autor é um complemento perfeito à discussão apresentada pela Boitempo ao publicar esses artigos de Marx. O artigo amplia a crítica para exemplos próximos da realidade de membros de qualquer classe social. Seus argumentos nessa tarefa passam tanto pelas patentes mundiais quanto pela pirataria de filmes e CDs. Assim, Bensaïd consegue mostrar de forma clara e fácil de compreender a evolução do pensamento dominante burguês e sua sobrevivência ao longo dos séculos de sua existência.

Embora o artigo faça uma introdução ao cenário daquela época, no fundo, é possível abstrair questões de contexto para focar apenas na crítica central de Marx sobre o uso do Estado pelo interesse particular. A tal “emenda”, que motiva o recém-doutor a escrever, é um mero exemplo de como o pensamento e os valores burgueses funcionam em sua época e quais eram os instrumentos de sua atuação e dominação. Não obstante, esses escritos de Marx são muito fáceis de serem lidos, mesmo sem uma contextualização muito aprofundada. Os artigos foram publicados entre 25 de outubro e 3 de novembro de 1842, na Gazeta Renana. O tom da escrita provavelmente é influenciado pela intenção do discurso elaborado para um determinado público alvo, um coletivo não acadêmico e, em sua maioria, elitizado e alfabetizado. Sendo assim, os artigos têm um estilo diferente de outros escritos mais filosóficos, como “Sobre a questão judaica” e “Crítica da filosofia do Direito de Hegel”, e se aproxima mais do sabor da escrita de “O Capital” (livro 1) e “Manifesto comunista”.

 

Embora distantes no tempo e no formato, tanto a animação Touro Ferdinando quanto os artigos de Marx no livro “Os despossuídos” são críticas muito valiosas para os dias atuais. Na animação, como já dito, o preconceito com as minorias e, principalmente, dentro da própria minoria é muito evidente. Já no livro, a questão da propriedade privada e o domínio dos interesses privados, nos faz pensar em como os cercamentos evoluíram ao longo do tempo para manter a dominação econômica e social da elite. Apesar de Ferdinando não ser tão sarcástico quanto Marx, ambos conseguem tecer críticas bem interessantes, a depender, claro, do olhar que se quer lançar sobre cada uma dessas obras.

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