Como seria o mundo sem distinção de gênero? [Resenha de “A mão esquerda da escuridão”, de Ursula K Le Guin]

Qual é a primeira pergunta que fazemos sobre um recém-nascido? A resposta é rápida, porém, e se a mãe dessa criança respondesse: “Esse ser não tem sexo”; ou, para quem nunca viu algo parecido, respondesse: “É um andrógeno”. A pergunta, no fundo, é: E se nossa sociedade não tivesse distinção de gêneros? Sem homem e nem mulher?

A primeira resposta, com a questão do gênero secularizada em nossa mente e sociedade, tende para analisar as implicações para nossa própria história. Em resumo, mulheres não seriam a construção social que sempre foram, como defende Simone de Beauvoir. Elas não ficariam na sombra dos homens. Sendo mais prático: teríamos mais escritoras, mais cientistas, mais estadistas, mais presidentes; também não teríamos estupros, feminicídio, cozinhas sendo consideradas a morada da mulher e, talvez, não teríamos escravidão, guerras, ativo e passivo.

Essa primeira resposta é, sem dúvida, formulada com mais detalhes por uma mulher. Por mais que nós, homens, tentemos ser empáticos com elas e com a causa feminista, é impossível, logo na largada da argumentação, ter a visão do que uma mulher passa ao longo de sua vida.

Voltando à pergunta, uma segunda resposta depende única e exclusivamente de um exercício de imaginação. É, de fato, a conjectura do “E se”, como a questão propõe. Arrisco a dizer que, na verdade, não somos capazes de dar uma resposta completa, talvez nem estudiosos da Antropologia ou da Sociologia conseguem a menos que usem comparações com sociedades primitivas. De fato, uma sociedade sem distinção de gênero já foi observada aqui e ali ao longo de nossa história, mas elas ficaram em um passado realmente distante. Tanto Beauvoir quanto Lévi-Strauss já trataram do tema ao analisar algumas sociedades indígenas. Contudo, mesmo ao responder nossa pergunta central com comparações ainda temos aqueles conceitos sobre gênero tão enraizados em nosso mundo. Lembrando que todo estudo, especialmente os da área de humanas, são feitos por um estudioso inserido e formado na nossa sociedade. A subjetividade pode ser minimizada ao máximo, mas é quase impossível de extingui-la quando usamos observações para tecer comentários sobre um povo, uma nação ou um único indivíduo. A prova mais fácil disso é considerar que a linguagem é ideológica, como defende Bakhtin.

Impossibilidades e limitações já apresentadas, vamos à imaginação. Antes, contudo, precisamos considerar dois pontos: não há identidade de gênero, mas há homens e mulheres como seres biológicos, não socialmente formados e enquadrados em posições de homens e mulheres. Com essas ressalvas, imaginamos, logo de cara e como já colocado, que não há injustiças e delegação de tarefas, papéis, funções. Para isso acontecer e garantirmos a procriação da espécie, a gravidez da mulher não pode, obviamente, ser encarada com um fardo ou um empecilho pelos homens. É única e exclusivamente uma função biológica, como em qualquer outro animal. É complicado pensamos nessa questão hoje, mas estamos em um exercício de imaginação, certo? Ok.

Sem fardos e tarefas todos fazem tudo. Mulheres constroem, homens constroem; Mulheres limpam, homens limpam; Mulheres ganham um salário X, homens ganham um salário X. Trabalho, educação e comando não são ligados ao gênero, portanto temos uma sociedade igualitária no sentido literal da palavra e não equânime. Igualdade parece até ser uma questão única e exclusivamente imaginativa para nós; portanto, equanimidade é uma luta neste cenário (o atual). Esse tipo de pensamento não existiria. Contudo, vai um aviso: se você pensou “Ufa, não existiria feminismo!”, você não entendeu ainda a proposta do texto. De fato não existiria feminismo porque ele não seria necessário. Não haveria a subjugação da mulher ao sistema patriarcal, ao homem, às relações de comando masculinas.

No âmbito do trabalho, a questão dos salários iguais seria factível. Não teríamos em nossa história o aproveitamento da mão de obra feminina, por ser mais barata, como aponta Marx e Engels em suas obras. Também não existiria a dupla, tripla ou décima jornada feminina, obviamente. Se todos são realmente iguais, não há em quem mandar, quem controlar, quem escravizar. Aqui entra uma nova dificuldade desse exercício que é enxergar essa possível sociedade sem o capitalismo. Porém, podemos recorrer ao comunismo e tudo fica simples. Poderia haver outro sistema econômico que não seja aquele pautado pela igualdade que não seja o comunismo? Claro que podemos estender a imaginação e pensar em um sistema completamente novo, mas qual? Essa discussão não cabe aqui.

Do trabalho para as outras esferas da sociedade, podemos pensar também na questão do direito. Se considerarmos, no entanto, que o trabalho humano move e constrói tudo, o direto seria, talvez, um mero detalhe. O que ele definiria? Propriedade privada? São todos iguais e todos têm direito a tudo, porque, então, haver um papel que diga que esses 40m² são meus? Dispensável. Ele talvez definiria regras de comportamento? Qual seria o motivo disso se consideramos que os principais crimes (aqueles que assustam tanto a classe média) são consequências de uma vida injusta e sem oportunidades? Talvez, nesse caso, a legislação iria discorrer apenas sobre crimes hediondos ligados a uma mente perturbada, como serial killers. Contudo, se mentes desequilibradas são resultado de um desenvolvimento falho na infância, ou seja, tudo ligado à frustrações sexuais envolvendo o pai e/ou a mãe (simplificando ao máximo a teoria de Freud), haveria crime hediondo? Não. E a natureza má do humano? Eles, de fato, seriam naturalmente malévolos ou essa é também uma construção psicológica e social? Acusar um pobre de maldade é motivo para o Direito Criminal traçar algumas linhas e enclausurar ou eliminar essa vida, quase desconsiderando o motivo da maldade; acusar um rico é outra história. Igualdade? Só na imaginação!

 

[Editora Aleph, 2014. Trad. Susana L. de Alexandria]
Esse exercício, embora interessante, é realmente bem difícil de ser feito sem muitas leituras e/ou horas de reflexão. Se perguntarmos para alguém na rua, a pessoa vai invariavelmente dar uma das respostas anteriores ligadas à nossa realidade que distingue gênero. É inevitável. Se você não quer parar para pensar nisso ou, na verdade, quer pensar um pouco sobre o assunto, vale muito a pena fazer a leitura de “A mão esquerda da escuridão”, da escritora norte-americana, Ursula K. Le Guin. Na obra de ficção científica, um terráqueo é enviado para o planeta Inverno com a missão de vender um aspirador de pó. O aspirador, na verdade, é uma liga de mundos, o Ekumen. Genly Ai, o Enviado, como ficou conhecido naquele planeta, ou Móvel, sua função no Ekumen, precisa averiguar a receptividade dos comandantes desse planeta em aderir à liga ou “família” e usufruir de uma rede de conhecimentos e à “[…] tentativa de reunificar o místico e o político”, à “sociedade” com cultura; à “forma de educação [ou a] uma escola muito grande” (p. 139).

Missão à parte, o que Genly Ai encontra em Inverno é uma sociedade sem distinção de gêneros. Na maior parte do tempo, não há divisão entre homens e mulheres. São seres andrógenos com características tanto femininas, quanto masculinas na percepção de Genly e de outros estudiosos do Ekumen. Em geral são seres andrógenos, homens-mulheres ou mulheres-homens que não têm órgão sexual enquanto não estão no ciclo reprodutivo (o kemmer). A sociedade toda é construída sobre essa questão, porém, como é colocado em um dos capítulo, essa sociedade pode ser uma experiência:

Parece provável que eles tenham sido um experimento. A ideia é desagradável. Mas, agora que há evidências de que a Colônia Terráquea foi um experimento, com a implantação de um grupo Hainiano Normal num planeta com seus próprios proto-hominídeos auctóctones, a possibilidade não pode ser ignorada. A manipulação genética humana seguramente foi praticada pelos Colonizadores; nada mais explica os hilfs de S ou os hominídeos alados degenerados de Rokanan; o que mais explicaria a fisiologia sexual getheniana? (p. 95)

O trecho destacado acima até mostra todo um contexto que nos é apresentado apenas neste ponto do livro. Embora Genly tenha explicado o que era o Ekumen em outras ocasiões para os moradores de Inverno, o cenário macro ao qual a história está inscrita. Isso é só um detalhe, mas parece ser também uma propaganda do que se passava pela cabeça de Le Guin ao criar um universo de possibilidades para outros livros. Esse universo, chamado Hainish, na verdade, começou com outra obra, “Rocannon’s World”, de 1966. “A mão esquerda da escuridão” viria apenas em 1969 e foi o trampolim da autora para o reconhecimento na área da Ficção Científica.

Como uma exploradora de novos mundos, a obra de Le Guin se assemelha muito com um artigo antropológico. Embora o narrador central diga logo no primeiro parágrafo que seu relatório será feito em forma de uma narrativa, as observações que ele faz sobre o mundo no qual aterrissou lembram muito o olhar de um estudioso que pela primeira vez observa pessoalmente uma tribo indígena.

Farei meu relatório como se contasse uma história, pois quando criança aprendi, em meu planeta natal, que a Verdade é uma questão de imaginação. O fato mais concreto pode fraquejar ou triunfar no estilo da narrativa: como a joia orgânica singular de nossos mares, cujo brilho aumenta quando determinada mulher a usa e, se usada por outra, trona-se opaca e perde o valor. Fatos são mais sólidos, coerentes, perfeitos e reais do que pérolas. Mas ambos são sensíveis. (p. 15)

Essa sensação de estarmos lendo um estudo antropológico, algo presente na primeira metade do livro especialmente, é mais que justificado quando temos mais informações sobre a escritora: “Seu pai era o eminente antropólogo Alfred L. Kroeber e sua mãe era a escritora e, também, antropóloga, Theodora Kracaw Kroeber Quinn.”[1] Contudo, a decisão (não muito bem explicada) de Genly Ai de subverter qualquer rigor acadêmico ao optar por uma narrativa, ajuda e não ajuda muito. Os estilos se confundem ao longo do livro, mas essa confusão, provavelmente intencional, acabam por deixar algumas partes cansativas. O enredo parece não avançar muito até mais ou menos a página 190 quando uma reviravolta na história acrescenta um pouco mais de ação e deixa as questões políticas ligadas à missão de Genly Ai de lado.

Embora eu tenha encarado essa questão como um dos poucos pontos negativos da obra, a história é, sim, muito envolvente (depois que deslancha). Aparentemente as 190 primeiras páginas do livro são toda uma preparação para as 100 restantes. É neste momento que vemos, pelos olhos de Genly Ai e de outros narradores (as vezes com nome, as vezes desconhecidos) como a sociedade em Inverno é construída, especialmente em Karhide e Orgoreyn, duas “nações” separadas por um deserto, mas “inimigas”. Essa questão, inclusive, nos faz pensar muito no contexto no qual Le Guin estava escrevendo, ou seja, no meio da Guerra Fria, em 1969. As duas nações não se atacam, mas estão constantemente em conflito. Não há, contudo, guerra e nem ataques a países amigos de meus inimigos, como ocorreu no embate gelado entre Estados Unidos e União Soviética.

E a questão dos gêneros?

Você pode voltar à essa pergunta, afinal, pouco falei dela. Na verdade, na minha impressão da leitura, a questão pouco aparece ao longo do livro. Embora ele seja vendido com essa propaganda, temos apenas um capítulo no qual nos é explicado toda a questão pelos olhos de uma estudiosa do Ekumen, porém, ao longo da narrativa, o que deveria ser característica central da obra (levando em conta, mais uma vez, a propaganda), assume um papel secundário, de poucos comentários aqui e ali. Genly Ai mostra algumas vezes o conflito que há para um terráqueo sexuado no relacionamento e convívio com “alienígenas” assexuados. Ele observa características femininas e masculinas na voz e nas atitudes dos personagens com os quais lida ao longo de sua jornada.

O que me decepcionou um pouco foi ver que, embora esses seres de Inverno pudessem ser experiências de manipulação genética, o experimento provavelmente falhou. Apesar de ser um planeta sem estupro, guerras e sem complexo de Édipo, as aparências, o orgulho e o prestígio, que recebem o nome de “shifgrethor” são “o intraduzível e importantíssimo princípio de autoridade social em Karhide e em todas as civilizações de Gethen” (p. 26)

É provável que essa frustração seja intencional: seres humanos, mesmo despidos de seus gêneros, continuam seres humanos pautados pelas aparências. Se for este o caso, a obra é realmente coesa, só não é a porcaria da propaganda do livro:

“A menos que consiga superar os preconceitos nele enraizados a respeito dos significados de feminino e masculino, ele corre o risco de destruir tanto sua missão quanto a si mesmo.” (como apresentado na sinopse da contra-capa do livro)

Na verdade o conflito de Genly Ai relacionado ao preconceito acima descrito não é tão forte assim ao longo da história. Ele se prende, sim, aos rótulos de feminino e masculino quando está  descrevendo algum personagem ou alguma situação, porém, a questão do “shifgrethor” é muito mais dominante que a questão do gênero e ele precisa lidar essencialmente com essas aparências dos outros personagens durante muito tempo. Em um momento específico a vida de Genly depende da confiança em um outro personagem, mas essa confiança passa pelo preconceito ligado ao “shifgrethor” e não ao fato de aquela pessoa ser ela, ele ou elx.

Nas palavras de Le Guin

Incomodado com essa questão, resolvi pesquisar um pouco. Logo após terminar a leitura de “A mão esquerda da escuridão”, um amigo, Marcos Mekaro, publicou no Facebook o link para um blog pessoal (Saboten-en) no qual ele começou a traduzir textos interessantes de outras línguas para ajudar a galera que se interessa pelas mesmas leituras que ele, mas que têm o idioma como uma barreira. O texto de estreia do blog foi “Uma guerra sem fim[2], da Le Guin.

[Editora Verso Books (EUA), 2016]
Publicado em 2016 pela Verso Books como um ensaio na edição comemorativa de “Utopia”, de Thomas Morus (capa ao lado), o texto, como apresenta Mekaro, “toca nos problemas das formas como em geral são encaradas a opressão e a resistência e oferece algumas reflexões sobre o papel da ficção fantástica em combater a postura de que as coisas como são ‘sempre foram assim, sempre serão assim, e é assim que elas devem ser.’”

O texto é maravilhoso e fiquei imaginando o prazer do Marcos ao traduzí-lo. Porém, o que nos interessa aqui é o ponto de convergência com “A mão esquerda da escuridão”. Por tratar de opressão, Le Guin passa invariavelmente pela questão do gênero. Vou destacar as palavras dela, traduzidas pelo Mekaro.

Se um imperativo biológico [que determina a constituição de hierarquia de poder das sociedades] tão inato existe, seria ele igualmente imperativo nos dois sexos? Não temos provas indiscutíveis de diferenças inatas de gênero no comportamento social. Essencialistas em ambos os lados da discussão afirmam que os homens têm uma inclinação inata a fundar hierarquias de poder, enquanto as mulheres, apesar de não fundarem essas estruturas, as aceitam ou imitam. De acordo com os essencialistas, o sucesso dessa programação masculina é por isso quase certo, e deveríamos esperar sempre encontrar cadeias de comando, o “superior” comandando o “inferior”, com o poder concentrado em poucos, como um padrão quase universal das sociedades humanas. (LE GUIN, 2016 | do Blog Saboten-en)

A postura de Le Guin é bem clara na passagem acima. Se o tal imperativo biológico existe, homens estarão no comando, certo? A realidade prova o argumento. A escritora continua:

A Antropologia fornece algumas exceções a essa suposta universalidade. Etnólogos descreveram sociedades que não possuem cadeias de comando fixas; nelas o poder, ao invés de existir preso dentro de um sistema rígido de desigualdades, é fluido, compartilhado de forma diferente em diferentes situações, operando em sistemas de freios e contrapesos tendendo sempre ao consenso. Eles descreveram sociedades que não classificam um gênero como superior, apesar de sempre haver alguma divisão sexual do trabalho, e das atividades masculinas serem celebradas com mais frequência. (LE GUIN, 2016 | do Blog Saboten-en)

Aqui vemos o conhecimento e a influência que a Antropologia teve na formação de Le Guin. No entanto, o trecho mostra que ela teve contato com esses estudos e descrições de sociedades sem cadeiras de comando fixas. Isso é perceptível em “A mão esquerda da escuridão”, afinal a pessoa responsável pelo governo de uma nação, Karhide, por exemplo, pode engravidar e voltar a ser “neutro” depois de um tempo. O gênero não determina se aquele rei ou rainha têm mais ou menos capacidade de comando, mesmo esse rei sendo tachado como “louco” por Genly Ai. Esta questão é tratada logo no começo do livro, quando o personagem principal ainda insiste em enquadrar os seres de Inverno em rótulos. Porém, a loucura desse rei também está ligada ao  jogo de “shifgrethor”, portanto, inato aos seres daquele planeta (e talvez à raça humana e sua variáveis?).

Aparentemente, no entanto, a questão da fraqueza dos gêneros na obra também é compartilhada pela própria Le Guin quando ela passa a refletir sobre suas obras e o papel das utopias na literatura.

As ficções científica e de fantasia desde sua concepção oferecem alternativas ao mundo presente e real do leitor. Jovens em geral abraçam essas histórias porque, em seu ânimo e ânsia por experiências, eles acolhem as alternativas, as possibilidades, a mudança. Havendo aprendido a temer até mesmo que se imaginem mudanças reais, muitos adultos renegam toda literatura imaginativa, se orgulhando de não ver nada além do que já sabem, ou pensam que sabem.

Ainda assim, como se temessem seus inquietantes poderes, muitas das ficções científica e de fantasia são tímidas e reacionárias em suas invenções sociais, a fantasia se agarrando ao feudalismo, a ficção científica às hierarquias militares e imperiais. Ambas em geral recompensam seus campeões, sejam heróis ou heroínas, apenas por feitos incrivelmente másculos (Eu mesma escrevi assim por anos. Em A Mão Esquerda da Escuridão, meu herói não tem gênero, mas seus atos de heroísmo são quase exclusivamente masculinos.) Na ficção científica em particular é comum encontrar a idéia que discuti acima, de que quaisquer pessoas de status inferior, se não forem rebeldes constantemente prontos a agarrarem a liberdade por meio de feitos audazes e violentos, são ou desprezíveis, ou sem qualquer importância. (LE GUIN, 2016 | do Blog Saboten-en)

Como destacado em negrito, Le Guin tem a consciência de que em um mundo sem gênero os atos masculinos predominam. A necessidade inconstante de Genly Ai de usar o pronome masculino para todos os personagens mostra isso. Embora possamos imaginar que essa questão é proposital para talvez mostrar a “natureza do ser humano”, mesmo que sem gênero, é possível encarar as palavras de Le Guin como uma autocrítica por cair no senso comum que tanto a incomoda.

Portanto, se não for pra ler um livro sobre um mundo sem gêneros, pra quê ler “A mão esquerda da escuridão”? Abstraindo essas contradições podemos aproveitar a leitura tanto pela “ótica antropológico-imaginativa” feita por Le Guin quanto também pelo enredo. Como dito anteriormente, o livro não é 100% uma coisa tampouco 100% outra. É uma mistura que pode cansar um pouco pela falta de desenvolvimento na primeira metade do livro, mas que surpreende e compensa a espera na segunda parte.

Uma outra ótica, ligada à Antropológica, é a da Linguística. Em diversos momentos os narradores abordam a questão das palavras e do conhecimento possível à partir do mundo real. Para pensar: teríamos avião se nunca tivéssemos visto um pássaro ou um inseto voar? O livro responde essa questão de uma forma bem bacana. Outro ponto, mais sobre conhecimento, é sobre a “inutilidade de saber a resposta à pergunta errada”. Se você erra na pergunta, não consegue construir uma argumentação lógica e tampouco convincente. Se não faz as perguntas certas, como pode tomar uma decisão bem estruturada? Esse ponto também aparece no livro.

No geral, portanto, há muito mais pontos positivos que compensam as decepções relacionadas à questão do gênero. Sendo assim, a leitura vai cair muito bem nesse clima mais friozinho que temos agora no outono e no inverno brasileiros! =)


[1] Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ursula_K._Le_Guin

[2] Link: https://sabotenen.wordpress.com/2018/05/01/uma-guerra-sem-fim-uklg/

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