“Hibisco Roxo”: a história única e a toxicidade da fé cristã na África

Até onde vai sua fé, quando a falicidade de seus filhos está em jogo? Qual a importância da tradição e da fé e cultura locais? Quão destruidora é a cultura branca? Quão machista é a fé cristã? Qual é o valor da liberdade e o sabor de um sorriso?

São perguntas como essas que martelam na cabeça após a leitura de “Hibisco Roxo”, da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Não vou me atrever a responder todas, mas há algumas similaridades com a história brasileira que nos permite uma aproximação da realidade africana.

Livro de estreia de Chimamanda, Hibisco Roxo ganhou notoriedade em grandes prêmios de literatura. O romance da escritora nigeriana se destacou na categoria de Melhor Ficção de Estreia no
Hurston/Wright Legacy Award, em 2004; Melhor Primeiro Livro (Africa e mundo) no Commonwealth Writers’ Prize, em 2005; e
“One Maryland, One Book”, em 2017. Fora isso, Chimamanda ganhou notiedade após uma fala no TED, sobre o Perigo da História Única (The danger of a single story):

O perigo da história única, de Chimamanda Ngozi Adiche, em 2009

Chimamanda omeçou a ler aos 4 anos e a escrever aos 7 . Suas leituras eram de autores britânicos e isso influenciou sua escrita:

“Eu escrevia exatamente os tipos de histórias que eu lia: todos os meus personagens eram brancos de olhos azuis, brincavam na neve, comiam maçãs e conversavam muito sobre o tempo e como seria ótimo se o sol desse suas caras” (em tradução livre do vídeo acima).


A realidade da Chimamanda criança, no entanto, era diferente: elas não falavam sobre o tempo porque não era necessário e comiam mangas, não maçãs. Em Hibisco Roxo, a personagem principal, Kambili, não é branca e nem come maçãs. Ela é filha de um poderoso industrial de sua cidade, frequenta regularmente as missas da igreja que o pai suporta financeiramente e não tem voz ativa para nada que vá além dos mandamentos da igreja. Ela esconde perfeitamente seu cabelo debaixo de um turbante durante a missa, afinal, mulheres não devem ter vaidade e deixar mechas de cabelo à mostra é um sinal de desrespeito na casa do senhor. Ela tem uma rotina de estudos muito bem definida pelo pai e não pode pensar em perder um horário sequer. Ela precisa, sempre, estar em primeiro lugar na sua turma, afinal, esse é o plano de Deus e de seu pai, que não teve acesso ao mesmo tipo de educação quando era criança, antes de ser recolhido por missionários brancos e católicos.

A realidade de Kambili é limitada à escola, aos estudos e às missas. Ela é reclusa nos cômodos brancos de uma casa gigante e no final do ano vai para uma vila próxima para a comemoração do ano novo. Kambili não vê e nem enxerga muita coisa além desse mundo cronometrado de acordo com as horas do Senhor.

“Quando eu li que era esperado que autores tivessem uma infância realmente infeliz para serem bem sucedidos, comecei a pensar em como poderia inventar coisas terríveis que meus pais faziam para mim. Mas, a verdade é que eu tive uma ingância muito feliz, cheia de risos e amor, em uma família muito unida. Mas eu também tive avós que morreram em campos de refugiados. Meu primo Polle morreu porque não teve acesso a um tratamento de saúde adequado. Uma de minhas amigas mais próximas, Okoloma, morreu em um desastre de avião porque nosso caminhão de bombeiro não tinha água. Eu cresci sob governos militares repressivos que desvalorizaram a Educação, então as vezes, meus pais não recebiam seus salários. Então, como criança, eu vi a geleia desaparecer da mesa do café da manhã; a margarina desapareceu; o pão ficou muito caro; o leite se tornou racionado. E acima de tudo, um tipo de medo político normatizado invadiu nossas vidas. Todas essas histórias fez quem eu sou.”

Muito da fala de Chimamanda no TED de 2009 está presente em sua primeira obra, Hibisco Roxo. Seus personagens, mesmo os ricos como Kambili e sua família, não comem maçãs, mas sim mangas e inhames. As pessoas não são brancas, mas têm a cor da terra na qual seus primos e seu irmão plantam os hibiscos roxos e cuidam de outras flores e plantas. Algumas roupas são amarelas como bananas. O jogo de metáforas no livro é simplesmente lindo. Não se espera que árvores sejam verdes e a “cor de pele” seja igual ao lápis do conjunto de 24 cores da Faber Castell. Todo o colorido e todos os sentimentos são condizentes com a realidade que Chimamanda cresceu, sentiu, se formou.

A história

Há dois pontos que saltam aos olhos na história de Kambili: a repressão de um governo militar que desvaloriza a Educação e a crueldade cega de uma fé cristã que invalida toda a tradição nigeriana. Paralelos a parte, a questão política está presente na vida da tia de Kambili, uma professora universitária que sustenta seus filhos com o salário que mal ganha; cozinha os alimentos em um fogão de querosene que pode explodir a qualquer momento e, por ser crítica, está na lista negra do reitor da faculdade e tem seu emprego ameaçado a todo momento.

Já a questão da religião, ela aparece de uma forma bem cruel. Os mandamentos são o que são: mandamentos. Eles extrapolam uma lista de 10 coisas escritas numa pedra e se transformam em uma infinidade de restrições para os comportamentos, vestimentas e até pensamentos dos cristãos nigerianos de Hibisco Roxo. Kambili, por estar imersa em uma família extremamente patriarcal, sofre com essa cultura imposta pelos brancos colonizadores. Ela apanha, tem os pés queimados com água quente e quase morre ao ser repreendida fisicamente pelo pai. O motivo do castigo? Conviver com um pagão, seu avô, sem contar nada ao pai.

Hibisco Roxo é, portanto, uma descoberta e uma liberação. Kambili descobre a vida quando deixa a vida que tem. Ao sair das paredes brancas de sua luxuosa casa e da “casa do Senhor”, ela descobre o que é sorrir; o que é viver sem a permissão e as limitações impostas pelo pai; ela descobre o que é uma família. Ela se libera, pouco a pouco, de sua mente presa aos mandos de seu pai. Ela libera seu livre arbítrio, não sem antes sofrer muito, e vive, não sem cicatrizes.

A leitura, do começo ao fim, é maravilhosa. Além das questões das metáforas ligadas à realidade de Kambili e Chimamanda, ler Hibisco Roxo é acompanhar um momento único na vida de uma criança que não teve escolha de sua religião, de seu comportamento, de suas reações. A leitura é acompanhar o primeiro retrato que a autora fez de sua infância e as críticas que ela trouxe à tona de uma realidade complexa, embora não sempre negativa, mas dura e contrastante com a história única dos brancos que vivem fora do “país África” (veja o vídeo para entender a referência).

“Todas essas histórias fizeram quem eu sou. Mas, insistir apenas em histórias negativas, é deixar minhas experiência superficial, e ignorar as várias outras histórias que me formaram. A história única cria estereótipos, e o problema com estereótipos não é que eles não sejam verdades, mas que eles são incompletos. Eles fazem uma história se tornar a única história.”

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