“Nós somos muitos, somos uma legião”. Ah vá? Jura? Me poupe!

As capas e edições da DarkSide são sempre geniais e primorosas. Assim como a falecida Cosac Naif, a editora especializada em obras de ficção científica, fantasia e, principalmente, terror dedica um esforço grande para que cada um de seus livros seja único. 

Porém, não só de capas vive uma editora. Ao publicar as edições clássicas de Stoker, Shelley e Poe, a editora nos dá presentes muito bem embalados na coleção Medo Clássico. Nestes casos, os títulos teriam a capacidade de se vender sozinhos, mas com tamanha concorrência no mercado, o visual é o que faz os livros se destacarem nas livrarias e nas estantes de leitores.
Legião“, de William Peter Blatty, se limita à aparência. A capa vermelha, com um demônio e duas cruzes, é uma tentação. “Quero ler uma obra de terror real, com demônios medo, talvez um exorcismo, dado que Blatty é o criador do famoso ‘O Exercista’“, pensei ao comprar o livro e pegá-lo para iniciar a leitura. Quando terminei, contudo, vi que a edição é bonita. Só.
Claro que é preciso considerar todo o contexto do livro, publicado em 1983. Como comentei ao ler “A noite dos morto vivos“, de John Russo, o medo muda. O que despertava medo nas pessoas há 60, 30 ou mesmo 15 anos não é o deixa a maioria de nós de cabelos em pé hoje. Demônios, vampiros, lobisomens e o monstro de Frankstein, talvez pela saturação de suas imagens, não são mais tão temidos. 

Hoje, em terra de zumbi, quem desperta medo é rei. Talvez por isso os filmes de terror apelem tanto para os famosos  jump scare, porque criar uma atmosfera de medo real não parece ser algo tão trivial como era no passado. Ainda bem que temos roteiristas inteligentes que apelas para um medo psicológico – como é o caso de “Us” (2019) e “Get Out” (2017), dirigidos por Jordan Peele; ou “A Quiet Place” (2018), dirigido por John Krasinski; ou “Bird Box“, escrito por Josh Malerman. Estes três exemplos mexem com algumas questões de nosso cotidiano que não são meramente o medo do bicho papão. 

Enfim… dado o contexto, o livro de Blatty não dá medo; o demônio não “aparece”; e não tem exorcismo. São páginas e páginas de um policial investigando mortes misteriosas que seguem o padrão de um serial killer já morto, o Geminiano. Investiga, investiga, investiga e descobre-se que (cuidado com o spoiler), o espírito daquele assassino reencarnou no corpo de um padre junto com uma legião de demônios, mas estava confinado em um hospital psiquiátrico (à época ainda “manicômio”). De vez em quando ele sai do corpo que habita para matar pessoas que seguem o mesmo padrão do passado. Porém, demora todo o livro para entenderem como tudo isso acontece. Quando descobrem, o tal Geminiano descobre que o pai, a fonte de toda sua maldade e revolta com o mundo, morreu. Sem propósito, o Geminiano vai para sabe-se lá onde e tudo acaba.

O autor ainda tentou fazer uma referência a “Os irmãos Karamazov”, de Dostoiévski – foi uma visão até interessante, relacionada aos três irmãos da obra do romancista russo. Porém, o recurso parece ter sido só para suprir a falta de um fechamento mais adequado, pois não tem nenhuma relação com a história do livro.

Foi uma leitura realmente decepcionante. Apesar disso, ainda busco uma obra da DarkSide que realmente dê medo de ler. Alguém indica alguma?

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